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Visto
no brilhante e efervescente ecrã de 300 metros quadrados que agora se
inaugura, o que cedo se percebe é que não será o tamanho do dito, nem
dos óculos que o acompanham, que acrescenta à mais recente interpretação
do Super-Homem a grandeza que se esperava. Também não se esperava que
na sala de cinema com a tecnologia mais pontiaguda que há por cá se
apresentasse o filme à imprensa acompanhado com baladas pop como música
de fundo. Independentemente das condicionantes da exibição há que olhar
para o mais recente filme de Zack Snyder e discorrer sobre: Cuecas; O
efeito Nolan; Autofagia ou a metáfora involuntária; O messias e os
perigos do revisionismo.
Cuecas: o novo milénio terá trazido poucos novos géneros (ou subgéneros) à maquina de Hollywood, talvez o found footage
e o moderno filme de super-heróis sejam as poucas excepções (entenda-se
moderno no sentido em que ao contrário das adaptações do anos 80, que
mimetizavam as séries televisivas, as recentes adaptações de BDs são
objectos independentes dessa mercado paralelo). Nesse sentido os
exemplos de filmes de man's vêm pululando: spider-man, super-man, iron-man, bat-man, x-men.
E com eles, quase sem excepção, uma ideia de que será positivo
credibilizar os ícones infantis das tirinhas, dando-lhes dilemas morais,
dificuldades de integração na sociedade, triângulos amorosos e toda uma
panóplia de sentimentos e problemas próprios das gentes que assistem ao
festim de explosões digitais. Tal empresa carrega uma certa dose de
ridículo porque por muito sofredor que o herói seja a verdade é que ele
deita teias pelas pulsos ou cospe raios vermelhos dos olhos ou um sem
número de outras capacidades extraordinárias. Em Man of Steel (Homem
de Aço, 2013) tudo isso se cose de forma demasiado visível,
nomeadamente no facto de o messiânico herói não transportar as habituais
cuecas por fora do facto. A lógica é compreensível, quem usa cuecas por
fora das calças?, mas esquece o básico, quem usa capa e voa e vê
através das paredes e dispara tiros pelos olhinhos e é invencível a tudo
menos aos materiais provenientes de um planeta distante?. Adaptar
um herói de banda desenhada envolve uma aceitação da fantasia juvenil
que o próprio acarreta e por isso todas estas tentativas de lhe conferir
verosimilhança caem no ridículo.
O efeito Nolan e o malsinado Snyder: Claro
que nem todos os realizadores seguem o caminho da credibilização, mas
Christopher Nolan é de todos o mais audível dos perpetradores. Em Man of Steel
a sua presença está sublinhada como co-argumentista e como produtor,
mas o que mais espanta é perceber como essa presença condiciona de forma
tão evidente a direcção de Snyder. Zack Snyder é um dos melhores
tarefeiros da máquina de Hollywood e deu origem a alguns títulos muito acima do que seria de esperar, nomeadamente Watchmen (2009) com base na graphic novel de Alan Moore ou a actualização de Dawn of the Dead (2004)
com argumento de James Gunn. Parece-me portanto que Snyder é um
realizador à medida do seu argumento, e como tal será tanto melhor
quanto o material de origem. Neste mais recente título o que é
surpreendente é o facto o realizador que conhecíamos de um apurado
sentido visual e fetichista do ralenti estar desaparecido para
lhe dar lugar câmaras ao ombro e acção frenética e incompreensível, ou
seja aquilo que Nolan nos tinha habituado nos seus Batman.
Autofagia ou a metáfora involuntária: Se
a primeira década de filmes de super-heróis trouxe tudo aquilo que
referi no primeiro ponto, esta segunda década parece repetir a anterior:
tivemos no ano passado o reboot de X-Men [X-Men: First Class (2011)] depois dos vários filmes de Bryan Singer e de Spider-Man [The Amazing Spider-Man
(2012)] depois da recente trilogia de Sam Raimi e agora esta renovação
do Super-Man. Este estado de coisas em que a produção de Hollywood se
repete ad infinitum é representado de forma bastante esclarecedora (ainda que certamente inconscientemente) na própria backstory do
filme. Tudo começa do planeta Krypton, lá longe nos confins do espaço, e
o outrora grandioso império dos kryptonianos está em declínio devido
fundamentalmente a dois factores: por um lado todos os indivíduos do
império foram desenhados geneticamente de modo a cumprir uma função
predefinida na sociedade - impedindo assim os reveses do acaso e as suas
infinitas possibilidades, por outro lado, a grande necessidade de
recursos levou à exploração do centro do planeta culminando na sua
implosão e consequente destruição dos seus habitantes. Está visto que o
paralelismo com o império de Hollywood é claro como água, também o
outrora grande império definha e os motivos são semelhantes: cada filme é
o resultado matemático da soma dos seus ingredientes com vista a um
publico específico e catalogado (impedindo a surpresa e o desafia de
algo inesperado) e em vez de dar a esse mesmo público objectos novos
cospe-se-lhes os mesmos filmes (literalmente) vezes e vezes sem conta.
O messias e os perigos do revisionismo: Como
acabei de referir, todos os habitantes de Krypton são o resultado do
desenho genético pré-estabelecido, portanto todos originam de concepção
imaculada, ao contrário do super-man que é o primeiro parto natural em
mais de 300 anos. Divertido será reparar que a promessa do planeta, o
messias, seja aquele - o único - concebido em pecado. Este 'jesuização'
do super-herói já não é de agora,
mas aqui ganha uma proporção perigosa (e de novo ridícula, o herói
antes de se encontrar é um saltimbanco barbudo, mas assim que veste o
facto de látex justinho perde miraculosamente a barba) quando se entram
por caminhos de revisionismo histórico. Toda a sequência final do filme
se passa na baixa de Nova Iorque (há uns meses Jon Stewart reclamava no
seu Daily Show sobre o facto de Manhattan se ter
tornado uma escala para as catástrofes: "tal bomba é capaz de destruir a
área de três Manhattans") onde os perigosos alienígena atacam em força.
Snyder filma grande parte da batalha 'épica' do ponto de vista dos
transeuntes que se vêem envolvidos na pancadaria intergalática e
envolvidos também pelos escombros e fuligem que a destruição de
múltiplos arranha-céus produz. É no mínimo de mau gosto encenar todo o
fogo de artifício de um filme de pipoca no exacto local onde se deram os
traumáticos atentados a 11 de Setembro de 2001, mas prior é reencenar o
horror das pessoas que lá trabalhavam ou viviam simplesmente pelo
desejo de agigantar a acção de um filme - sem pelo caminho causar
qualquer sensação de expiação desses acontecimento [como por exemplo
acontecia em Cloverfield (2008)]. Como se isto não
bastasse, cria-se a certa altura o subentendido perverso de que se o
Super-Homem lá tivesse estado ter-se-ia evitado os atentados. Discursos
como este são o pão para a boca de interesses anti-democráticos (e
fascizantes, coisa que o último filme do Batman deixava bem claro) que
não devem nem pode ser sustentados, muito menos através de
entretenimento supostamente saudável.
Pode o leitor pensar que quem escreve estas linhas detesta filmes de pipoca e blockbusters, desengane-se. Puxando levemente pela memória recordo três títulos dos últimos dois anos que merecem o meu total respeito: John Carter (2012), Mission Impossible - Ghost Protocol (2011) e Captain America: The First Avenger (2011).
Cada um deste filmes sobe oferecer entretenimento inteligente e nunca
manipulativo, sempre devedor das suas origens mas nem por isso
reverencial, suficientemente parolo e deliciosamente dedicado. Tudo o
que Man of Steel não é.
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