Pedro Coelho decidiu unir o país em passo de corrida, do
Minho ao Guadiana. Numa maratona de 24 dias, por 900km da costa
continental, este professor de Educação Física já sabe como se vai
sentir na derradeira meta, no Algarve, a cruzar esta semana: "Vou
desidratar de tanto chorar de alegria", diz à Fugas.
Quando soube que não tinha sido sorteado para participar
numa ultramaratona em Mont Blanc, o professor de Educação Física decidiu
aproveitar a pausa escolar do Verão para se fazer à estrada e
atravessar o país a correr, seguindo a linha da costa. "Nada como
conhecer a ligação entre praias e zonas litorais, não por estrada, mas
percorrendo percursos e trilhos próximos do mar", dizia-nos Pedro
Coelho, a "dois passos" do fim da sua odisseia, já em terras algarvias.A partida foi de Caminha, a 14 de Julho. Desde então, correu em quase todo o tipo de terreno: areia, falésias, trilhos, canaviais, estradas alcatroadas e por vezes até lagoas e ribeiras, que teve de cruzar com água pela cintura. Já perdeu a conta a subidas e descidas, já teve etapas de mais de nove horas. Mas quase sempre com cenários idílicos como pano de fundo. Porque, se o objectivo é sobretudo testar limites, nada como aproveitar para também encher o olhar de "paisagens deslumbrantes" e conhecer melhor a "diversidade e beleza" do litoral português.
Na zona das serras do Risco e da Arrábida, por exemplo, encontrou "um pequeno paraíso", entre "o verde da vegetação, a imponência da pedra e o azul do mar" e a "total ausência de lixo e de presença humana no local", conta-nos numa troca de e-mails. O que até fez valer a pena os quilómetros perdidos em trilhos sem saída, que o obrigaram a voltar para trás algumas vezes. Já no percurso pedestre da Rota Vicentina, entre a Zambujeira do Mar e a praia de Odeceixe, descobriu uma "verdadeira maravilha", ideal para passeios em família. Um percurso "muito bem sinalizado, com escarpas imensas e alguns areais quase desertos", resume.
No entanto, o percurso que mais gostou de fazer até ao momento foi a única etapa nocturna do projecto, uma recriação de algo que organiza em Castelo Branco desde Fevereiro: a Full Moon Run Party. A partir de conversas com colegas de corrida, Pedro Coelho decidiu organizar estas festas nocturnas, uma forma de unir as pessoas à volta da corrida, usando a lua cheia como pretexto. Após três edições de sucesso, as Full Moon Run Parties começaram a ser temáticas e mensais.
Desta vez a festa passou para o litoral, numa corrida entre a praia do Bom Sucesso, na Foz do Arelho, e a Consolação. "Pelo número de pessoas envolvidas, pelos locais percorridos e pelo ambiente gerado entre todos, foi sem dúvida um marco muito importante neste desafio", afirma o professor de 45 anos. O mesmo já não poderá dizer da etapa seguinte, que o levou da Consolação à Ericeira. Foram 56,50 km, feitos em 09h06min, entre "falésias, trilhos, praias, canaviais imensos quase intransponíveis, subidas e descidas perigosas".
Ao longo dos quilómetros percorridos, Pedro Coelho já passou por aventuras várias, entre perder-se, terrenos complicados ou dificuldades de logística com o transporte. Uma vez até acabou inadvertidamente por "invadir" um parque de campismo. Porém, diz-nos, tem contado sempre com "a solidariedade e entreajuda de amigos" e "principalmente de pessoas que não conhecia de lado nenhum". Além de Eduardo Santos, que o acompanha desde a segunda etapa, têm sido muitos os companheiros de viagem, que se juntam para partilhar um par de quilómetros, ajudar na logística ou oferecer comida e guarida.
Pelo menos desde 2004 que Pedro Coelho anda nisto das corridas. Já atravessou a meta de 16 meias-maratonas, 6 maratonas e várias provas de trail e ultra trail. Há dois anos começou a somar pontos em competições para poder participar no Ultra Trail do Mont Blanc. Alcançou a pontuação necessária, mas o acesso é feito por sorteio e a sorte não lhe sorriu.
"Em Janeiro de 2013 não fui sorteado e disse à minha família que, sendo assim, faria o país de norte a sul pela costa litoral durante as férias de verão de 2013", conta o professor de educação física. A 14 de Julho partiu de Caminha para a sua corrida de mais de 900km, divididos por 24 etapas, com 52 concelhos para atravessar.
Chegou ao Algarve quase ao mesmo tempo da grande enchente turística da região: na quarta-feira, 31 de Julho, pisava o último distrito a percorrer. As praias do sul se a encherem-se de veraneantes a preguiçar ao sol, as temperaturas do ar e da água a subirem e Pedro Coelho de olhos fixos na meta. "Embora desfrutando de cada passada que damos por esta costa lindíssima", está sempre presente "o objectivo final", a meta em Vila Real de Santo António.
"Vou 'desidratar' de tanto chorar de alegria por ter alcançado tão difícil objetivo e por recordar tantos e bons momentos que vivi ao longo destes 24 dias, apesar das mazelas nos pés, nos músculos, nas articulações...", diz, concluindo: "Apenas pormenores na enorme vontade e motivação que sempre tive".
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